quarta-feira, 11 de junho de 2008

Canadá: saúde e imigração

A discussão sobre o sistema de saúde (falido) do Canadá é perpétua.

São relativamente raras as notícias sobre crimes escabrosos, mas os jornais fazem a festa com casos escabrosos ligados ao atendimento nos hospitais -- gente que precisa esperar 6 meses uma cirurgia, com o crânio aberto; gente que morre em salas de espera; partos na rua porque o hospital não dá entrada na grávida em trabalho de parto.

Por exemplo, um caso recente de um veterano de guerra, já idoso, que fez uma cirurgia e ficou sem nenhum tipo de atendimento deu margem a uma avalanche de relatos semelhantes (referentes ao mesmo hospital, o de North York, aqui em Toronto) que foram publicados no The Star.

O fato é que o sistema de saúde no Canadá é público. Existem clínicas privadas, mas não hospitais. Também não existe seguro de saúde privado. Os seguros são só complementares -- por exemplo, cobrem despesas ortodônticas ou de tratamentos mais alternativos que não fazem parte do plano de saúde geral.

O sistema está quebrado, não há médicos suficientes e todos, democraticamente, sofrem com horas de filas e mau atendimento. Quem tem grana e urgência para fazer algum tratamento ou cirurgia muitas vezes vai para os EUA e paga pelo serviço. Mas isso é para poucos.

O Canadá é supostamente um país aberto e acolhedor (e se orgulha muito disso). Não é difícil conseguir visto para trabalhar aqui e a população acolhe bem os imigrantes.

Mas onde o bicho pega mesmo é quando um estrangeiro mora aqui, ainda não é cidadão e quer usufruir do sistema de saúde.

Nós, por exemplo, somos residentes temporários. O Gustavo tem o UHIP, plano de saúde da universidade (a cobertura é muito ampla, o que é restrito são as clínicas e hospitais a que ele tem direito, que são os ligados à universidade) e eu, com meu visto de trabalho temporário em aberto, fui pedir o OHIP, plano de saúde da província de Ontario. Descobri que não tenho direito a ele enquanto não for residente permanente. Quer dizer: eu posso morar aqui, posso trabalhar, devo pagar meus impostos, mas não recebo de volta o direito de usar os hospitais públicos. Acabo tendo que pagar para ser dependente do plano do Gustavo.

Mas isso não é nada.

O caso debatido nos jornais esta semana é o de uma filipina que veio para o Canadá naquele esquema de cumprir 3 anos de trabalho e então poder pedir cidadania para a família toda. Após cumprir o tempo de serviço, nos trâmites para a cidadania ela fez um exame de saúde e detectou câncer em estado avançado. As autoridades então negaram o pedido dela, alegando que a doença era pré-existente e que seu tratamento seria oneroso demais para os cofres públicos. Ela tem 2 meses para voltar para sua vila natal nas Filipinas.

Novamente, isso gerou uma avalanche de reações a favor e contra a mulher. As opiniões contrárias (a minoria) enfatizam a crise do sistema de saúde, que mal dá conta de atender os cidadãos canadenses, e o perigo de abrir o precedente e atrair gente de fora com problemas de saúde. Mas a maioria ficou revoltada com a recusa do visto e com a idéia de usufruir da tão necessária mão-de-obra estrangeira (recolhendo impostos e tudo mais) e depois mandá-la embora por uma mera questão de conveniência.

A coisa é delicada. É claro que o governo tem o direito de dar ou recusar a cidadania conforme seus próprios critérios, mas essa decisão se choca com a atitude moralista do país.

São acolhidos muitos refugiados, e parece que há uma certa tradição de acolher também a desertores do exército americano. Foi este último ponto que motivou a coluna que saiu hoje, questionando a aceitação de mais um desertor americano no país ao mesmo tempo que a filipina foi rejeitada.

O desertor -- quem o apóia diz que faz "resistência à guerra" -- é considerado criminoso pelos EUA, por mais que os canadenses adorem usá-lo para posar de pacifistas e alfinetar os "vizinhos ao sul da fronteira", como se referem aos americanos. Experimente pedir um visto de residência permanente no Canadá e ter ficha suja no seu país de origem e veja se dá certo. Todos os antecedentes são pesquisados. Mas as motivações políticas prevalecem sobre os detalhes burocráticos no caso dos desertores.

O mesmo não vale para a filipina, onde só entraram os custos que ela vai gerar ao governo, mesmo já tendo contribuído durante 3 anos.

É um tema bem espinhoso, que só tende a piorar.

Nenhum comentário: