domingo, 14 de setembro de 2008

Estudando para a prova de trânsito

(É a Carol.)

Estou estudando para a prova teórica de trânsito daqui. Decidimos mexer nosso traseiro gordo da cadeira e tirar carteira de motorista, mesmo sem termos nem querermos ter carro -- mas podemos querer alugar para viajar, por exemplo.

Por enquanto, só eu estou fazendo isso. É, porque o senhor Gustavo descobriu que está com pontos na carteira brasileira e devendo uma multa (que nunca recebemos) há anos. Já pagamos a multa, mas os pontos ficaram. Então serei a motorista oficial por um tempo.

O sistema de habilitações aqui funciona assim:

As carteiras para dirigir carros (nem scooter, nem moto, nem microônibus, nem macroônibus, nem ônibus escolar, nem caminhão, nem a santa granada de mão, etc.) pertencem ao nível "G".

Quando você tem 16 anos, sendo daqui ou estrangeiro, pode fazer um exame de vista e a prova teórica e tirar a G1. Não, você não precisa saber dirigir. Isso mesmo: você tira uma carteira sem nunca ter sentado atrás do volante na sua vida.

De posse da G1, você pode fazer aulas de direção. Você só pode dirigir junto com uma pessoa que tenha a carta G plena e dirija há pelo menos 4 anos, não pode levar outros jovens, não pode dirigir após a meia-noite e não pode dirigir em estradas estaduais ou federais.

Um ano depois, você pode fazer a prova prática para o nível G2. Passando, você tem mais privilégios e pode dirigir sozinho, quase sem restrições. Só que tem que renovar a G2 a cada (acho que) 3 anos, refazendo a prova. Um ano depois, você pode fazer a prova prática para a G plena.

Essa última prova prática dizem que é bem pentelha, pois cada microcoisa tira ponto (tem que olhar em todos os espelhos a cada 5 segundos, por exemplo). Mas, passando, ela é sua pelo resto da vida, sem restrições.

Quer dizer: se você nunca dirigiu, leva 2 anos até ter uma carteira plena.

Vindo de outro país e com experiência anterior, o que a gente pode fazer é levar a carteira de motorista, junto com um nada consta do Detran, para o consulado brasileiro. Eles emitem um documentozinho explicando em inglês o que tem na sua carteira (onde consta a data da sua primeira habilitação). Com isso, você pode comprovar quanto tempo dirigiu nos últimos 3 anos. Comprovando mais de 12 meses, você já pode fazer a prova prática para a G2 e, comprovando mais de 24 meses, você faz a prova difícil para a G. Se for reprovado, você cai na categoria anterior ou pode refazer a prova, dependendo do caso. Eu quero tentar a G direto, mas se não der vou de G2.

Estou há algumas horas lendo o infindável código de trânsito. Tem regrinha para cada coisa. Se chegar num cruzamento não sinalizado você, um caminhão, um ônibus escolar, um ônibus normal, uma velhinha de cadeira de rodas, um ciclista e um esquilinho, qual é a ordem de prioridade? E se tiver placa para ceder a vez? E se tiver placa para parar? E se tiver rotatória? E se tiver saída de escola? E se o esquilinho for surdo? Um capitulozinho para cada detalhe.

Os cruzamentos aqui são divertidos. Há duas regras gerais:

1- Basicamente, pode tudo, inclusive com sinais vermelhos, a menos que alguma sinalização proíba expliciamente alguma coisa.
2- Há ordens e prioridades e, em geral, você é sempre o último.

Como pedestres, a gente se vê em situações estranhas, atravessando em um cruzamento de pedestres numa rua de mão dupla enquanto há carros virando em todas as direções, inclusive se cruzando no meio da rua em direções opostas e com o sinal fechado. Desde que todos dêem prioridade ao pedestre, ciclista, velhinha ou esquilinho, e desde que não fiquem todos engavetados no meio da rua, tudo bem.

Tudo é cheio de metragens. Não sei o que cai na prova teórica, então estou meio preocupada em decorar essas metragens aleatórias (bom, pelo menos é metragem... podiam ser jardas, pés ou milhas, e aí realmente seria ruim). Se um ônibus escolar para e sinaliza, você tem que ficar 20 metros atrás dele. Dirigindo à noite, você precisa baixar o farol 150 metros à frente de um carro que vem na direção oposta ou 60 metros atrás de um carro na mesma direção. Como medir essas distâncias é o que ninguém explica.

E tem umas coisas estranhas. Por exemplo, ao dar marcha ré numa rua, como você deve proceder?

a) Conferindo que não haja ninguém do seu lado no ponto cego, mantendo as duas mãos no volante e olhando para trás usando os espelhos, ou
b) Ignorando os espelhos, tirando o cinto de segurança para facilitar, tirando uma das mãos do volante e girando o pescoço para trás?

Se você respondeu (a), você foi reprovado no teste. Olhar no espelho e dirigir com as duas mãos é coisa de subdesenvolvido.

Ah, e ainda falta muito para eu acabar de ler o diabo do livrinho...

2 comentários:

Barts disse...

Se o esquilinho for surdo ele terá prioridade sobr a vovó com andador?

No rio é assim. Passa na frente o mais forte, no caso, o caminhao, seguido do onibus escolar, seguido de vc com a mao na buzina full time, seguido do esquilinho tetraplégico dando olé na vovó do andador -e por ultimo vem o malabarista. Vcs chegaram a pegar, no Brasil, o balarista de sinal?

Carol disse...

Sim, o "malabarista" -- se é que pode se chamar de malabarista um garoto com duas bolinhas de tênis, rodando uma delas em volta da cabeça -- é atração obrigatória nos sinais do Rio há tempos.

Aqui os sinais são monótonos. Todos os pedintes e artistas ficam na calçada chamando a atenção dos pedestres. Ninguém percebeu ainda que os motoristas são alvos bem mais fáceis. Acho que vou patentear e vender a franquia daqueles saquinhos de bala com mensagem comovente colocada no retrovisor dos carros.