sábado, 20 de setembro de 2008

Tim Hortons


Já mencionamos o Tim Hortons mais de uma vez por aqui. É a maior cadeia de fast-food do Canadá e um importante componente da pobre identidade cultural do país.

Quando chegamos aqui logo percebemos a quantidade de lojas e de gente andando pela rua com o copinho marrom na mão.

Agora, um ano depois, temos uma compreensão mais completa do significado do Tim Hortons.

O básico do Tim Hortons são cafés, donuts e bagels. Tudo bastante simples; o café mais sofisticado é o mocca (o capuccino lá do Brasil), as bagels (roscas salgadas) vêm com recheios básicos tipo BLT (bacon, alface e tomate) ou queijo cremoso, e os donuts realmente vêm em muita variedade, mas também são combinações de relativamente poucos ingredientes.

O slogan é "Always fresh", e realmente é verdade. O dilema da Tostines vale perfeitamente aqui -- vende mais porque é fresquinho e é fresquinho porque vende mais. Basta passar 10 minutos observando o balcão para constatar a altíssima rotatividade dos lanches.

Tim Hortons é o símbolo do canadense trabalhador. O dia de muita gente não começa sem um café e um bagel com ovo mexido, e a qualquer hora do dia se vê gente saindo dos escritórios para levar vários copos de café e uma caixa de donuts para os colegas.

A clássica cena simpsoniana da dupla de dois tiras de pé na calçada em frente ao Tim Hortons, ou dentro da viatura, comendo "humm! rosquinhas!" é bem comum.

Tudo é muito barato. A gente chegou aqui meio deslumbrado com Starbucks, Second Cup e Timothy's, os cafés charmosos. Copos altos, muita espuma e... três doletas para começo de conversa.

No Tim Hortons, os tamanhos são menores (o que eu acho ótimo, porque é muito mais comum eu estar a fim de 200 ml do que de 300 ml de café) e o café simples custa alguns centavos.

Eu viciei no mocca. É simples, com menos frescuras do que os dos primos ricos: calda de chocolate, café com razoável gosto de café, e chantilly bem docinho. Preparado em 15 segundos pela mesma imigrante que faz tudo, em vez de em dois minutos naquela complexa linha de produção do Starbucks.

Dia desses voltei a tomar um Starbucks e juro que achei sem graça. Em compensação, quando vou ao supermercado (tem um Tim Hortons lá dentro -- sempre tem um Tim Hortons bem onde você precisa), já fico com água na boca pensando no meu café com donut.

Tim Hortons é o café do trabaiadô. É barato e eles economizam em tudo o que não for café e donut. Portanto, o copo não tem aquele cilindro de papelão em volta, para você não queimar a mão. Trabaiadô queima a mão e pronto. Foi por isso que aprendi, observando o comportamento dos canadenses autênticos, o jeito certo de segurar o copo: o polegar vai em cima, no canto da tampa, e os dedos embaixo, onde a parte mais grossa do copo não deixa o calor passar.

Tim Hortons é statement. Uns meses atrás, o sistema de trânsito estava ameaçando entrar em greve. Foram semanas de negociações. No dia D, horas antes do acerto ou decreto da greve, os jornais ficaram relatando em tempo real as negociações finais. Lembro bem que eles fizeram questão de relatar que volta e meia saíam representantes dos sindicatos, passavam em frente ao Starbucks que ficava bem do lado e atravessavam a rua, no inverno, para buscar cafés no Tim Hortons.

O relato me chamou a atenção e passei a reparar: trabalhador braçal, estudantes, jovens sem grande preocupação com a aparência, todos andam com o copinho de Tim Hortons na mão. Outro dia tinha uma cena na plataforma do metrô que a timidez me impediu de fotografar: uma jovem com cara de estudante segurando o copinho de Tim Hortons (do jeito certo, é claro) e bem perto dela uma loiraça, de cabelo todo tchuns, maquiagem, roupa colada, grifes grifes e grifes, elegantemente segurando um copo alto do Starbucks.

Tim Hortons é quase uma ideologia.

Acho que na prova sobre cultura canadense para nomear novos cidadãos, além de decorar datas cívicas, cantar o hino e jurar submissão à rainha da Inglaterra, daqui a pouco vão perguntar se você é habituê do Tim Hortons.

Tim Hortons é amor à pátria.

Um comentário:

Rafael disse...

kkkk, muito bom seu texto carol!
não vejo a hora de chegar em toronto em dezembro pra provar dessa belezura :)