segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Um pratão para os comedores de papel

Foi.

Torçam para não voltar.

Acabamos de mandar o calhamaço de formulários e documentos para o setor de imigração. Estamos um bagaço.

Uma breve explicação sobre o sistema de vistos daqui:

Você pode ser turista, residente temporário, residente permanente ou cidadão. Nós somos residentes temporários. Nosso visto pode ser renovado e durará o tempo que durar o doutorado do Gustavo. O Gustavo só tem permissão para estudar (não trabalhar). Meu visto é atrelado ao do Gus, então quando o dele vencer o meu vence junto. Eu tenho permissão para trabalhar (não estudar).

Residente permanente e imigrante são a mesma coisa. Para obter um visto permanente, que nos permita estudar e trabalhar, entrar e sair quantas vezes quisermos e termos outros direitos e benefícios que os cidadãos têm, como plano de saúde pública, etc., precisamos passar pelo processo de imigração. É isso que estamos fazendo.

Há muitas formas de imigrar, mas a única na qual nós nos encaixamos é como "skilled workers" (profissionais qualificados, com formação superior e alguns anos de experiência naquela profissão).

A rigor, só se pode imigrar estando fora do Canadá. Mas, se você tem um visto de resistente temporário, está aqui há pelo menos um ano e seu visto é válido por pelo menos mais um ano -- nosso caso --, você pode pedir a residência permanente. Como ela não pode ser pedida dentro do Canadá, a documentação é mandada para o consulado canadense em Buffalo, NY, EUA, bem aqui na fronteira com Ontário. Esse consulado só existe para atender pedidos de estrangeiros que estão dentro do Canadá mas precisam pedir coisas fora do Canadá -- e aí já se começa a ter uma idéia das vias tortuosas que os burocratas são capazes de imaginar, as quais a gente tem que percorrer também, seguindo as instruções mais esdrúxulas.

Tá, temos que tirar o chapéu para o fato de que dá para fazer tudo isso sozinho, sem contratar advogado, despachante, etc. para entender a papelada. Tudo o que se precisa saber sobre qualquer coisa referente a este tema está no site oficial de imigração e cidadania. Lá tem todas as informações, formulários e instruções.

O chato é que as instruções são tão, mas tão detalhadas que a gente surta. Se qualquer coisinha não estiver nos conformes, eles devolvem tudo e não processam seu pedido. Mas quando as instruções incluem o diâmetro exato do pontinho do i, você começa a se preocupar pensando se o diâmetro do ponto final tem que ser igual ou não e começa a entrar em pânico se algo não está 100% claro.

Para dar exemplos concretos:

Exceto quando informado em contrário, todos os documentos enviados devem ser cópias. Todas as cópias devem ser certificadas. As certidões policiais/criminais e os históricos escolares devem ser originais. Qualquer coisa que não estiver em inglês ou francês deve vir acompanhada de uma tradução juramentada. A tradução deve vir acompanhada da certificação emitida pelo tradutor e de uma cópia dos documentos.

Aí a gente se pergunta: se a tradução é feita a partir do original e vem acompanhada de uma cópia, é preciso mandar também a cópia certificada ou os outros originais? Como não tínhamos como saber, incluímos tudo. Melhor sobrar do que faltar.

Outro: em um dos formulários, tivemos que listar em uns quadradinhos de diferentes tabelas (tudo feito em tamanho lilliputiano, mas onde você tem que incluir zilhões de informações que, naturalmente, não cabem nos quadradinhos) nosso histórico de endereços, empregos, cursos e todas as outras atividades e não-atividades (i.e. "passei um mês jogando videogame") de todos os meses da sua vida desde os 18 anos de idade. Em só uma dessas tabelas havia a instrução de listar as atividades começando pela mais recente. Nas outras, não havia nenhuma informação sobre a ordem de apresentação dos dados. Ficamos horas debatendo se deveríamos seguir rigorosamente as instruções e só listar tudo ao contrário nessa tabela ou se era melhor sermos coerentes e sempre listar as informações a partir da mais recente. Acabamos optando pela coerência, mas ficamos apreensivos.

Há outros detalhes incríveis, sobre os milímetros que seu rosto pode ocupar na foto, por exemplo. Aí o fotógrafo, na hora de bater a foto, estava bolado porque meus lóbulos das orelhas estavam atrás do cabelo e os caras devolvem se não conseguirem ver seus lóbulos. Mas isso não estava nas instruções! A gente já estava tenso e o fotógrafo dizendo "Ah, se não virem seus lóbulos, eles devolvem!" Eu sabia que burocrata comia papel, mas que tinha tara por lóbulos é novidade.

E aí vem a piada de mau gosto final. Depois que você coletou certidões negativas de tudo quanto é tipo, juntou todos os seus diplomas e históricos escolares, todos os contratos de trabalho acompanhados de cartas dos seus ex-chefes -- sem esquecer de anexar o cartão de visita de cada um -- comprovações do seu nível de inglês, comprovações do dinheiro que você tem, mais meia dúzia de formulários onde você descreve seu físico, o histórico inteiro da sua vida, lista todos os seus parentes, justifica suas qualificações, anexa cópias de todos os documentos que comprovam que você nasceu, casou e está vivo, mais os passaportes e vistos, tudo isso com cópias notarizadas, traduções e certificações da tradutora, mais seis fotos de cada um em envelopinhos indicando a data de nascimento, a altura e a cor do olho e, last but not least, uma ordem de pagamento polpuda para os tios da imigração, vem a instrução final:

Coloque os documentos em um envelope de dimensões 23 x 30,5 cm.

É basicamente um envelope tamanho carta. Fino. Para enfiar nele um tijolo de papéis com três dedos de altura, cheio de grampos e clipes.

Devo ter passado duas horas indo do correio para a papelaria e vice-versa. Quando o envelope é alto na lateral, invariavelmente é maior do que as dimensões pedidas. Quando é do tamanho pedido, é fininho. Não que eu não tenha tentado enfiar tudo no envelope fino, mas ele rasgava antes de eu conseguir colocar metade dos papéis. Pensamos em ignorar a instrução e enfiar tudo num envelope grande, com um bilhete do tipo "Foi mal aí, mas no envelope pedido não cabe." Aí o Gustavo ficou imaginando que eles devem ter um arquivo que mede exatamente 23 x 30,5 cm e, se não conseguirem guardar seu envelope lá dentro, encaixado perfeitamente, ficam bravos e mandam tudo de volta.

Acabei conseguindo um envelope três centímetros maior em cada dimensão e dobrando as extremidades de modo que ele ficasse milimetricamente do tamanho pedido. Estava me sentindo que nem os caras do Apolo 11 quando tinham que encaixar uma peça redonda numa abertura quadrada para tentar reentrar na atmosfera sem explodirem.

Queríamos mandar tudo do jeito mais rápido e seguro possível, só que o jeito mais rápido e seguro possível implica que alguém lá do consulado assine confirmando o recebimento, senão o entregador volta com o pacote. Só que o cara do correio me disse que os caras do consulado não assinam nada. Claro. Tem que ser muito burro para pensar que eles se dignariam a assinar o papelzinho do correio.

Dane-se, vai de carta registrada, mesmo. Afinal de contas, só tem a nossa vida toda lá dentro, reduzida a uns papéis que nos custaram alguns milhares de dólares.

Mas foi. Mandei.

Agora, se tiver qualquer coisa errada, volta tudo e temos que recomeçar.

Se estiver tudo certo, vamos esperar "muitas semanas" (segundo o arquivo de instruções) e receber a confirmação, junto com instruções para fazermos exames médicos.

Quer dizer: quero ficar um bom tempo sem ter notícias desse troço. Se chegarem notícias logo, provavelmente são ruins.

O processo todo não vai levar menos de um ano e meio, mas estamos torcendo para levar menos de dois.

Dedos cruzados.

4 comentários:

Gus disse...

Aliás,

já vai tarde.

Literalmente, já que estávamos no final do prazo de validade das certidões negativas da polícia...

Daniduc disse...

Estamos na torcida! :)

Barts disse...

Idem

Tomara que tudo de certo@

Gus disse...

Obas! Valeu gente!