sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Marido surdo é marido feliz

Para quem não sabe, meu digníssimo é mutante, membro do seleto grupo secreto dos Z-Men, que são mutantes com superpoderes maneiros mas que não conseguem fazer nada de útil com eles, não ajudam ninguém, não ganham dinheiro e ainda ficam reclamando.

Ups! Eu disse "secreto"? Foi mal aí, escapou...

Enfim, o superpoder dele é a audição. Essa história começou há muitos anos, quando ele ouvia coisas como a música de fundo baixíssima em um shopping center barulhento, ou o velhinho que morava no andar de cima caminhar arrastando o chinelo. Eu não conseguia ouvir nada disso e aí ele dizia que eu era surda. (Fofo!)

Certa vez, fomos a uma otorrino e fizemos, os dois, testes de audiometria. O meu deu normal, mas digamos que minha audição não é lá minha melhor qualidade, e eu tenho "deficiência de discriminação", que é dificuldade de identificar um som específico quando há muitos outros misturados. Isso explica por que eu não consigo conversar em boates e por que nunca gostei de salas de aula barulhentas.

Mas isso não interessa. O que importa é que, quando o Gustavo fez o teste, a médica saiu do consultório com os olhos arregalados, chegou para mim e disse: "Jamais tente contar um segredo para alguém se esse homem estiver por perto! Ele ouve TUDO!"

Basicamente, meu digníssimo é quase um cachorro. No bom sentido.

No Rio ele se irritava muito com ruídos, mas o Rio é ruidoso mesmo. Aqui em Toronto, ainda mais nos burbs onde nós estamos, reina um silêncio maravilhoso. No inverno, então, quando a casa toda fica fechada com vidros duplos, a gente ouve a própria respiração. O verão é mais barulhento pois há mais gente na rua, mas também há inúmeros passarinhos, grilos e todos esses ruidinhos legais. Há também guaxinins fazendo bagunça nas lixeiras e muito mais barulho humano... digamos... empolgado por causa do calor, os hormônios e coisa e tal. Enfim.

A sensibilidade auditiva do Z-Man foi aumentando. Ele ouve o trem passar num vale a vários quilômetros daqui. Ouve a vizinha ouvindo música baixinha. Ouve tudo. E se desconcentra dos estudos, e não consegue dormir.

Após um período particularmente difícil com vizinhos extremamente problemáticos morando no porão (há dois apartamentos no subsolo, embaixo da gente), o Gustavo estava uma pilha de nervos e qualquer ruidinho o tirava do sério e o mantinha irritado e desconcentrado durante muito tempo após o barulho passar.

Como não dá para mudar o resto do mundo, eu investiguei tampões de ouvido feitos sob medida (ele já tinha tentado dormir com aqueles de avião, mas não fazem a menor diferença). Achei aqui pertinho um consultório só de audição. Entrei lá e disse: "Meu marido tem um problema. Ele ouve demais. Vocês têm como fazer algo para ele ouvir menos?" A moça riu e disse que sim.

Consulta marcada, molde feito e CEM doletas a menos depois, chegaram os tampões bem no formato dos ouvidos supersônicos do digníssimo. Ele resistiu um pouco à ideia no começo, mas já está se habituando e comprovando os resultados, tanto para dormir quanto para estudar. Às vezes eu me pergunto se um singelo furinho no tímpano (feito em casa e de graça) não resolveria, mas ainda tenho esperança que ele consiga dar um bom uso para esse superpoder.

3 comentários:

Gus disse...

Ah, o amor.

Carol, você esqueceu mais dois dos meus preciosos poderes: a língua colorida e o dente p/ armazenamento de vinho.

Como se pode notar, ambos utilíssimos p/ o dia-a-dia de qualquer pessoa.

Daniduc disse...

Yeah, não sou só eu com o dom da super audição discriminatória.

- Tá ouvindo isso?
- Não, o quê?
- Um alarme, à distância.
- Não ouço nada.
- Presta atenção... ao fundo, separado dolatido de cachorro 3 quadras pra baixo... ó, asssim... peeem... peeem... peeem..
- Hm. pera.. nossa, ouvi! Putz... ARG! INFERNO! Agora não consigo mais não ouvir!
- Muwhuahua... bem-vindo ao meu mundo!

Interessantemente, o Demolidor foi o único super herói que vi abordar as desvantagens da super audição...

Enfim, saudações aqui dos trópicos. Não é nenhum RJ com seus 45 graus, mas os 35 aqui de SP já são suficientes pra deixar a gente meio troncho...

Gus disse...

hahahahahahahaa

Isso mesmo, sei exatamente o quevocê passa. Meus casos são mais simplórios do que os seus:

(passeando no shopping, domingão, adolescentes e criancinhas correndo e gritando ao redor)

- Cara! Não acredito!
- Que foi?
- Aquela música dos anos 80! Lembra?
- Quê?
- Aquela música, assim ó: tum, tum, tum.
- ???????
- Não ouve?
- só ouço as criancinhas..

bem, pois é. O único problema é que os plugs de 100 dólares não passaram no teste ontem a noite. Não, a vizinha não estava com o supernamorado. Mas ela estava falando no telefone na maior empolgação:

- OMG, OMG, OMG...

Os plugs não foram capaz de derretor os poderes alucinados da vizinha barulhenta.