sábado, 6 de março de 2010

Patriotismo canadense

Nós acompanhamos de perto as transmissões das Olimpíadas de Inverno, em Vancouver, e com isso presenciamos uma versão revista, ampliada e intensificada do eterno "quem somos, de onde viemos, para onde vamos e qual é o sentido da vida" de ser canadense.

O governo investiu uma fábula em promover o evento aqui dentro, fomentando o patriotismo. Roupas, gorros e luvas do "Team Canada" são vendidos há mais de um ano. O objetivo neste evento era que o Canadá conquistasse o maior número de medalhas, sendo o sonho paradisíaco ideal superar os EUA. Superar os EUA é o grande sentido da vida para os canadenses, acompanhado de perto por fazer de tudo (mas sem demonstrar isso) para mostrar ao mundo que o Canadá existe e não apenas uma extensão do Nebrasca.

Aliás, uma frase de Helen Gordon McPherson resume muito bem tudo isso: "Canadians have been so busy explaining to the Americans that we aren't British, and to the British that we aren't Americans that we haven't had time to become Canadians." ("Os canadenses se preocupam tanto em explicar aos americanos que não são britânicos e aos britânicos que não são americanos que não tiveram tempo de se tornar canadenses.")

Mas, no domingo de encerramento das Olimpíadas, quando o Canadá já havia batido o recorde de medalhas de ouro ganhas em Olimpíadas de Inverno, o sonho de todo canadense se realizou: na última final de todas, a maior, a mais significativa, a do grande esporte nacional -- hóquei -- o Canadá enfrentou o grande rival, EUA.

O país parou. Eu fui jogar squash de manhã e as pessoas estavam planejando a vida em função desse jogo, que seria à tarde. Não havia uma alma na rua quando o jogo começou.

Foi um jogo dramático: o Canadá começou ganhando, mas os EUA empataram faltando apenas 20 segundos para o fim do jogo. Na prorrogação, com morte súbita, o Canadá marcou. Vitória. Ouro. No hóquei. Contra os Estados Unidos. Loucura.

Em Vancouver e aqui em Toronto, o centro da cidade foi invadido pela multidão alucinada.

Aliás, vale a pena parar um pouco e entender melhor a noção de "multidão" e de "alucinada" no contexto canadense, pois não tem muito a ver com o Brasil. Veja aqui no Blog TO as fotos e os vídeos da loucura generalizada no centro de Toronto. O jogo estava sendo transmitido na Dundas Square e as pessoas fecharam a rua para comemorar. Os carros buzinavam e grupos de pessoas pululavam. Depois, quando a mídia começou a informar que a rua tinha sido fechada, muita gente foi para lá comemorar. No começo havia várias famílias com crianças; mais tarde, a comemoração desenfreada começou a perder o controle.

Como assim, perder o controle? Observe o vídeo "Canada Wins Gold Part 2", em que um grupo começa a cantar o hino. Eles estão segurando latas e garrafas de cerveja, na frente da câmera. E estão na rua. Isso é proibidíssimo, não se pode beber em local público. Mas havia jovens, isso mesmo, cometendo essa contravenção e desafiando autoridades. Meu Deus, onde é que o mundo vai parar?

E por falar em hino, eu já quase decorei o dito cujo. Originalmente uma música patriótica escrita por alguém da província de Québec -- portanto em francês -- foi adaptada e ganhou a letra atual em 1980, quando se tornou o hino oficial do país. Pois é, 1980. A música já era cantada desde a Primeira Guerra, mas o hino oficial ainda era "God Save the Queen", o hino britânico. Aqui está a história completa, com a letra e tudo mais.

O hino completo, que dura cerca de um minuto e meio, consiste de 10 versos, sendo três repetidos. Tudo a ver com o nosso impávido colosso deitado em berço esplêndido com o povo heróico dando brados retumbantes às margens plácidas do Ipiranga, né? "O Canada" parece um hino de igreja. Ouça aqui o hino completo, com a letra para acompanhar.

Mas tem um ponto em comum com o hino brasileiro: os filhos da pátria canadense pedem que Deus proteja o país e dizem estar em guarda para defendê-lo, assim como nós afirmamos ao nosso país "verás que um filho teu não foge à luta". Mas, na prática, lutar que é bom nada. O país é grande, bonito... Bom, no caso do Canadá, é só grande. Já nós temos o céu mais anil, a terra mais garrida, os campos com mais flores, as flores mais cheirosas, a grama mais verde, as mulheres mais bundudas e aquilo tudo. Os canadenses só conseguem afirmar que o país é glorioso, grande pra cima, grande pros lados e, tipo assim, fica no Norte.

Mas ainda dá para listar outras coisas boas que o Canadá tem. Veja este clipe, por exemplo.

Mas falando sério, é por isso que há um esforço oficial descomunal para melhorar o orgulho patriótico por aqui. Na melhor tradição britânica, os canadenses adoram gozar de si próprios para dissimular o complexo de inferioridade. É raro ver cenas genuínas de orgulho como vimos na comemoração ao fim das Olimpíadas.

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Comentário do Gus:

Ah, sim. Rocks and trees and trees and rocks... and waterrrrrr! (piada p/ a diretoria brazuca)

Mas o jogo foi muito bom mesmo. Me senti em plena copa do mundo, hehehe. Aliás, a "seleção" canadense parece muito a brasileira de futebol em algumas coisas. Na final, mandou 2 nos EUA logo de cara. Aí, colocou o patins de salto alto e começou a tocar o puck pro lado, pra trás, isolar na galera, e tal. Resultado? Empate faltando 20 segundos pra acabar o jogo. Felizmente, deu para vencer, os jogadores foram para a prorrogação com mais vontade e liquidaram a fatura em 7 minutos de pura pressão. Acho que se perdessem, haveria um ataque cardiaco coletivo no país.

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