sábado, 3 de março de 2012

Particular vs comunitário

Eu tenho recebido bastantes pedidos de tradução aqui em Toronto. Bastante coisa oficial, da prefeitura ou da província de Ontário, que é distribuída nas zilhões de línguas que se falam por aqui, inclusive Português.

90% das vezes, é Português europeu. A comunidade portuguesa aqui é gigantesca, e é impressionante a quantidade de portugueses que vive décadas aqui e não aprende inglês -- ou não aprende o suficiente para lidar com trâmites oficiais ou, mesmo que saiba se virar, recebe tudo em português mesmo.

Aqui é um direito tido como fundamental que a comunicação, para fins oficiais, seja na língua que você domine. Eu não sei bem como funciona, se os moradores fazem algum registro que indique em que língua preferem se comunicar ou algo assim. A questão é que, se houver procedimentos jurídicos, de saúde, assistência social, etc., eles têm o direito de receber os documentos ou contar com um intérprete na língua deles. Eu presto esses serviços às vezes; é o que aqui se chama "interpretação comunitária".

Não sei por que eu raramente recebo esse tipo de pedido para português brasileiro. Tenho a impressão de que os imigrantes brasileiros (que também são numerosos) são mais do tipo "xá comigo que eu sei falar inglês" e dá-lhe mímica combinada com embromation.

Mas o que eu queria contar é um caso que achei interessante.

Outro dia, recebi para traduzir uns documentos da prefeitura de Toronto. Eram vários iguais, com diferença de uns poucos detalhes. A tradução era para português europeu, então eu pedi ajuda à Melissa, minha colega braso-portuguesa. (Desde que aprendi que eles chamam "canadense" de "canadiano", perdi qualquer pontinha de coragem que eu ainda poderia ter para tentar traduzir qualquer coisa para o português lusitano.)

Os documentos continham uma explicação e uma cédula de voto. A explicação era que, em uma rua determinada onde os moradores tinham autorização para estacionar os carros na própria rua (há autorizações especiais para isso, senão um carro não pode passar a noite na rua), um morador pediu permissão à prefeitura para estacionar o carro na entrada da casa (provavelmente, deduzo, fazendo uma rampinha para carro). Como essa decisão altera o perfil da rua, a prefeitura envia esse documento com a cédula para todos os moradores em um raio de 100 metros da casa, e eles é que devem dizer se concordam ou não com essa modificação, autorizando o morador a estacionar na entrada da própria casa.

Em uma das ruas, o estacionamento era "alternado". Fui pesquisar o que era isso. É assim: nos dias pares, os carros estacionam do lado par; nos dias ímpares, estacionam do lado ímpar. Isso pode ser para facilitar a limpeza da rua, quando passam os caminhõezinhos que retiram folhas e neve, ou talvez para que não sempre as mesmas casas tenham todos os carros da rua na frente.

Eu já sabia que não se pode simplesmente largar o carro estacionado na rua. Por exemplo, uma conhecida está reformando a casa e tem materiais de construção e entulho na entrada de carros, então precisou comprar na prefeitura a licença para deixar o carro estacionado na rua, na frente da casa. Mas eu não sabia que o oposto -- ter uma entrada para carros na sua própria casa -- também precisava de autorização, e não só da prefeitura, mas da vizinhança.

E, naturalmente, a vizinhança não só vai ser informada sobre a intenção daqueles cidadãos como vai receber a explicação e a cédula na sua língua materna, para entender tudo direitinho. Os documentos que eu traduzi se referem a ruas que ficam bem no bairro português, mas certamente há outros imigrantes, como chineses (que estão por toda parte) e só Deus sabe quantos mais.

A Melissa estava fascinada com tudo aquilo. Me disse que em Portugal essas questões se resolvem no tabefe, seguido de anos e mais anos no tribunal. O Gus retrucou que no Brasil as coisas são mais refinadas, não há tabefe -- há propina. Um cafezinho aqui e ali para os fiscais da prefeitura e está tudo resolvido.

Eu fiquei pensando que, quando a gente acha que já é "de casa" aqui em Toronto, ainda somos surpreendidos por diferenças tão marcantes que chegam a ser difíceis de compreender. São diferenças em parte maravilhosas, mas em parte bizarras. Por exemplo, no fundo eu acho quase ultrajante que um monte de vizinhos aleatórios tenha o poder de decidir o que eu posso fazer no meu terreno. É uma noção de "comunidade" muito mais profunda do que a gente pensa. Eu adoro a ideia de que o que é público é de todos -- por exemplo, mesmo que a calçada seja pública, a responsabilidade pela limpeza, seja de lixo ou de neve, na frente das propriedades é dos moradores, e não da prefeitura. A cidade é limpa porque todos os cidadãos colaboram, porque esse é seu dever como cidadãos. Mas, no caso do estacionamento, o particular também não é puramente individual, e certas decisões precisam ser aprovadas pela comunidade.

Acho que ainda vamos aprender muita coisa neste país.

Um comentário:

Maria Elena disse...

Interessante... parece uma tentativa de conservar as vantagens das cidades pequenas. Imagino que só decisões de menor importancia sejam deixadas nas mãos dos vizinhos?